Levi,dogmas e magos fanfarrões

Navegando pelos fóruns da web eu notei um fenômeno curioso quando iniciantes pediam indicações de livros de ocultismo para se desenvolverem na senda.A mais comum,senão a mais clássicas das indicações dadas pelos “veteranos” foi a dos livros do Levi.Eu mesmo caí nesse engodo no começo da minha jornada e aos quinze anos já ter lido a obra e acreditado que a magia se processava daquela forma misteriosa e magnífica.

Afinal,o que tem de errado nesse tipo de indicação?

A princípio,nenhum.O problema é a contextualização da obra.O estudante quando lê algo antigo acaba por se esquecer de que aquilo foi produzido por uma mente que vivia numa época estranha a sua,e direcionadas por mentes contemporâneas as do autor.Não é fácil tentar justificar ou entender no começo,mas deve-se ao menos tentar respeitar a sabedoria que existe e na qual foi imantada a obra.Quiçá a própria Bíblia,tão antiga,tão modificada,uma colcha de retalhos historiográfica,teológica,mitológica…e ainda sim respeitada ou ao menos tolerada.

Assim deve se ter com Levi.Eliphas Levi,pseudônimo cabalístico para Alphonse Louis Constant.Francês que viveu no século XIX e é aclamado,não sem algum mérito,como um dos grandes mestres da magia de sua época.Sua biografia pode ser melhor vista no Ocultura e no Project Mayhem para me poupar trabalho e tempo.

O problema do Levi não é ele ser um mestre ao modo dele,mas ser exageradamente aclamado como tal sem o mínimo de questionamento.Muitos dos ditos “veteranos”(na verdade fakes de comunidades virtuais que se escondem atrás de identidades falsas para não revelarem a própria mediocridade) o recomendam sob o ar da pureza,como um verdadeiro iniciado,algo a ser seguido na risca.

Um recado para os corajosos que querem segui-lo à risca:boa sorte.Como diz meu pai:”se deu bem,meus parabéns.Se deu mal,se lasque só”(jeito bastante carinhoso de demonstrar carinho e cuidado para com o filho).

Levi viveu no século XIX(no fim,na verdade) e teve como grande influência os cabalistas,astrologos e teurgos do período Medieval.O mérito que ele teve como teórico foi expor o apurado que antes era esparço de tradições esotéricas,mitos populares,lendas e sistemas antigos que dificilmente seriam resgatados por outrem.Ele teve participação bastante ativa no meio ocultista de sua época,mas não diretamente ligado a nenhuma sociedade iniciática como maçonaria,ordens rosacruzes e martinistas,etc.Era certo que ele mais tinha mestres e discípulos que estudavam e se auxiliavam mutuamente.

Mas não foi assim tão grande novidade.O que Eliphas fez Barret e Agrippa já o faziam muito antes.O seu sucesso foi ter popularizado a magia não mais como um engodo miraculoso de prodígios misteriosos ou taumaturgias diabólicas de espíritos peversos.Para Levi,”a magia é a ciência tradicional dos segredos da natureza,que nos vem dos magos”.

Notem bem a sutileza,por muito tempo a magia foi considerada um artifício do demônio durante o Medievo.O que Levi fez foi por o crivo da razão sobre o conceito e fazê-lo retornar ao estado original,pois a mesma nunca deixou de ser ciência mas,diferente das artes e ofícios mundanos,uma ciência de caráter oculto aos tolos ou perversos.Tanto é que a partir desse ponto surgiu o conceito de “ciências ocultas” ou ocultismo,o grande trunfo e calcanhar de aquiles da modernidade.

A impressão que o termo ocultismo passa hoje é de algo que é escondido por ser proibido.Afinal,se é escondido então boa coisa não seria,não é verdade?A diferença é sutil,porque o escondido passa a idéia de ilicitude,ao invés de sigilo,que impõem respeito e discrição sobre os estudos.Ele pôs nesse último sentido por causa do contexto,pois a magia sempre foi combatida pela Igreja Católica e o espiritismo e positivismo estavam se popularizando.

De um lado o positivismo,doutrina de Aguste Comte que tinha inspiração católica e impunha um plano de ciência cética aplicada na organização da sociedade.Do outro lado do corner,os fenômenos espiritualistas das mesas girantes com seus comumentes casos de charlatanismo ou ataques por parte da Igreja Católica que posteriormente culminariam no espiritismo de Allan Kardec.A magia tinha de ser preservada ou cairia nas mãos dos charlatões ávidos de dinheiro ou escárnio por parte dos céticos ou da própria religião.

“A magia (…) é feita para os reis e padres;sois padre?sois rei?O sacerdócio da magia não é um sacerdócio vulgar e sua realeza nada tem que bater com os príncipes deste mundo”.Com esse raciocínio Levi cortava o mal dos céticos ou incrédulos quanto as artes mágicas e punha cal em cima dos tolos e curiosos ao avisar que “No caminho das altas ciências ,não convém empenhar-se temerariamente,mas,uma vez no caminho,é preciso chegar ou perecer.Duvidar é ficar louco;parar é cair;voltar para trás é precipitar-se num abismo”.

Isso é facilmente compreendido ao se observar que Eliphas teve uma profunda formação teológica por ter sido seminarista e quase tomado votos sacerdotais.Tanto é que o mesmo defende o catolicismo como a verdadeira doutrina redentora dos magos e que limpava seu passado sujo das práticas teurgicas pagãs.Sua formação como ciêntista chega a ser “limitada”,devido o excesso de linguagem hermética e rebuscada ou uma certa atitude literária de instigar o leitor de suas obras a temer magia como algo santo.Diferente do Papus,que foi médico por formação e era mais clínico em suas instruções.

Com esse tipo de linguagem,Levi peca pela didática e pela objetividade em suas obras.Mas não sem o mérito de ter sido ao menos o pioneiro em instituir a magia publicamente como ciência após um período de silêncio da morte de Barret e Agrippa,mestres que o precederam e dos quais ele retira grande influência.Tanto é que “Para chegar ao Santum Regnum,isto é,a ciência e ao poder dos magos,quatro coisas são indispensáveis:uma inteligência esclarecida pelo estudo,uma audácia que nada faz parar,uma vontade que nada quebra e uma discrição que nada pode corromper ou embebedar”.

O que foi citado acima e o conjunto da obra influenciou e animou muito Aleister Crowley a abordar(juntamente com o que ele captou de melhor de outras vertentes) sua definição de magick e o protótipo do que hoje se tornou o Iluminismo Científico.

Dogma e Ritual de Alta Magia

Sua obra mais evidente foi Dogma e Ritual de Alta Magia,livro no qual tinha a proposta de expor uma compilação teórica e prática da magia e de como ela se processa.Isso em teoria,é claro.O livro é de difícil leitura e compreensão se o leitor não estiver atento para a época em que foi produzida a obra,sendo muitas vezes um bom sonífero aos insones.A obra é dividida em duas partes,cujos capítulos faziam referências numéricas,esotéricas e alquímicas com as  correspondentes letras do alfabeto hebraico e arcano do Tarot.

Esse é outro trunfo do mago:codificar sistemas como o tradicional salomônico(de teurgia e goétia),alquimia,rosacrucianismo,neoplatonismo e catolicismo numa coerente relação iniciática com o Tarot e seus arcanos.Trabalho que foi posteriormente aperfeiçoado por adeptos como Mathers na construção do sistema mágico da Golden Dawn e revisado por Crowley e incluído no currículo para aqueles que desejam entrar na Astrum Argentum.

Fora isso o Levi “cagou o pau” em muitos quesitos.O prático foi o primeiro deles.Francis King(pseudo-historiador e não-mago) relata em Magia-A Tradição Ocidental que “As primeiras tentativas de Lévi na magia ritual foram realizadas em Londres e tiveram como objetivo invocar o espírito do taumaturgo pagão Apolônio de Tiana;não pode se afirmar que tivessem um grande êxito:praticamente os seus únicos resultados duradouros foram “uma peculiar rigidez do corpo e desmaios passageiros”.Parece provável que estes desagradáveis efeitos físicos fossem consequência de uma leve intoxicação com monóxido de carbono,dando que os ritos de invocação(evocação,o autor se equivocou) incluíam a queima de carvão,ervas e de diversos incensos em um espaço fechado muito reduzido(…)Não deixa de ser curioso que Lévi,quem costuma ser considerado o mago mais destacado de sua geração,quase não praticasse magia:este fato se deve ao seu labor como teórico.Mas nem sequer neste campo foi original”.

King simplesmente destrói a imagem de Levi como o mago perfeito.Isso é ótimo,porque não existem mestres perfeitos.O erro das pessoas em geral é considerar o puro e o perfeito como o bom.A pureza deve ser da intenção e não da aparência.Um copo de veneno pode ser mais puro que palavras de afeto ditas com propósitos mesquinhos.

O fato é que Levi foi um cara frustado por não ter se tornado sacerdote e descontava sua pureza em magia.Outro ranço do mago foi sua relação perante a mulher.O conservadorismo machista e patriarcal estava em voga no século XIX e ele fazia questão de explicitar isso com coisas tolas como “Cada cinco dias,depois do ocaso do sol,embebedar-se com vinho no qual terá feito infusão,durante cinco horas,de cinco cabeças de papoulas pretas e cinco cabeças de linhaça triturada:tudo contido numa toalha que tenha sido feita por uma prostituta(em rigor,qualquer toalha serve,se for feita por uma mulher)”(negrito meu).Isso é resultado e ranço de suas decepções pessoais nos campos da política(foi antimonarquista socialista e anarquista,segundo King) e religião(abandonou a batina) que acabaram por refletir no campo pessoal,com sua mulher o deixando( e o chifrando para deixar de ser besta) só com seu misto de pureza e pecado.

Outra tolice é a oposição clássica que até hoje repercute em magick é a a magia branca e negra.Não entrarei nesse tema ainda,mas essa parvoíce sem sentido é posta ao autor descrever uma operação de goétia ter como quesito o indivíduo ter “(…) uma ignorância aparente ou natural(…)uma fé cega em tudo o que não é crível” entre outras sandices.

Isso é tão besteirol da parte dele que ele mesmo não seguiu os conselhos básicos de evocação em magia salomônica e quase se lascou de vez ao tentar evocar uma entidade que nem existia mais (Apolônio de Tiana) ao mesmo tempo que ironicamente execrava as práticas espiritualistas das mesas girantes como fraude!Que diacho de mago é esse que tem medinho e nojinho?!Tudo bem que eu não tenho nervos de aço,prática de evocação e muito menos experiências mais fortes com entidades externas a mim,mas as atitudes incoerentes dele revelam o despreparo total ao estudante que o siga a risca sem um mínimo de bom senso que provam incontestavelmente como recomendação aos iniciantes.JAMAIS.

Agora,a obra deve ser lida porquê,além do bem e do mal,ela contém algumas perolas importantes a quem tem já uma experiência mediana e avançada nos estudos.

Fontes:

Dogma e Ritual de Alta Magia-Eliphas Levi,Ed.Pensamento

Magia-A Tradição Ocidental-Francis King,Edições Del Prado

Livro para leitura:

Dogma e Ritual de Alta Magia

(Dica de quem já leu:Leia os capítulos iguais de Ritual e Dogma seguidos.O conteúdo é o mesmo e a leitura se tornará mais fluida,exceto no finalzinho,que vai ficando mais pesado.Procure relacionar os capítulos lidos com o estudo individual dos arcanos que algumas descobertas interessantes podem surgir)

Outras fontes de consulta:

Artigo da Wanju Duli sobre Levi

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