Treinamento,diário e prática real

C.S.Jones meditando no asana dragão

Não sou lá a melhor pessoa para abordar esse tipo de assunto.Minha experiência maior são dos erros que cometo de vez em sempre no treinamento diário.Foi muito difícil no começo passar da inércia que a teoria e a abstração intelectual proporciona a algo de caráter prático e objetivo.

Uma coisa é você falar sobre o poder e simbolismo do círculo.Outro é você traçá-lo e assumir a responsabilidade pelas consequências e manter o auto-controle.Isso porquê a  mente sofre o primeiro impacto da realidade de forma avassaladora.

Foi assim com minhas primeiras práticas com o ritual menor do pentagrama e técnicas de relaxamento.Uma bosta para ser sincero,errava a vibração e as palavras e só fui aprender a executá-lo com o mínimo de decência na quinta semana de prática e com muitas ressalvas.Hoje passo por uma fase mediana de treino,o que é o ensejo do tópico de hoje.

Algo que é muito recomendado em magia moderna é o diário mágico.O propósito do diário é estimular a reflexão e auto-análise,assim como registrar as práticas diárias e o desenvolvimento do praticante na senda.

O porquê disso varia conforme a vertente de magia,mas em comum todas compartilham do fato de que o diário dá uma noção real das experiências pessoais do praticante.A experiência mística ou mágica sem um mínimo de questionamento pode levar o estudante ao erro de julgamento,tornando-o distraído e influenciável aos fatores e entes externos a ele.

Ao contrário do que pensam,no período Medieval esse era um costume bastante difundido,mudando apenas o formato.Isso porquê a visão do mago medieval de realidade não envolvia o aspecto mental em si e sim uma dicotomia entre o material e espiritual.Em se tratando de diário os grimórios não cumpriam tão satisfatóriamente a função por serem mais sistematizados e objetivos quanto aos tipos de práticas expostas.A única exceção que eu encontrei a essa regra foi no “livro dos espíritos”,uma espécie de registro científico e paulatino de evocações.Esse livro deveria ser dedicado somente àquele tipo de prática e aos espíritos conjurados para que desse poder a ele e ao mago operador.Dentre esses magos que explanaram sobre se enquadram Francis Barret,Agrippa e Jonh Dee.

O diário é a aplicação prática da teoria seguindo um método e racionalizando sobre este para chegar ao objetivo pretendido ou descobrir algo novo.Do mesmo modo que no “livro dos espíritos”,a prática constante do diário não somente eleva a força do objeto como também a do próprio praticante.

O modo de registrá-lo varia conforme o praticante.O ideal é que tenha data,local e hora.Informações adicionais como efemérides astrológicas,estado de espírito,emocional e físico,são muito bem vindos.O essencial é que nada seja omitido ou esquecido,pois toda e qualquer informação registrada é importante para posterior estudo.Os relatos podem ser tanto de caráter rotineiro quanto de prática assim como a reflexão é aconselhada como uma forma básica de psicoterapia.

Independente do tipo de caminho escolhido pelo buscador todos eles compartilham de práticas de relaxamento,meditação e oração para o iniciante se habituar a praticar e forçar a mente a ficar focada e poder ver além do que os olhos enxergam.Essa talvez seja a parte mais chata e dura de se tratar porque mexe com o orgulho,a preguiça e os sentimentos de cada um.

Treinar a mente chega a ser mais trabalhoso que treinar o corpo.Isso porque,diferente do corpo,a mente é intangível e indefinível.Não dá para se ter certeza onde ela começa ou termina especificamente e até onde vai suas influências aos outros e do meio externo ao subconsciente.A melhor imagem que eu encontrei para definir a mente é a do deus egípcio Toth e seu macaco mascote.

Toth representa o deus-escriba do conhecimento e magia,muitas vezes associado a mercúrio(e algumas a lua) e aos processos mentais.O domínio da mente em si.O seu macaco mascote era representado como um ser que por pura pirraça causava caos e confusão aos homens,cabendo a um papel bastante correlato com a mente rebelde a ser disciplinada pelo seu senhor.Essa tentativa de cominar a mente e focá-la na experiência espiritual talvez seja o maior desafio do magista iniciante.

Isso porquê são muitas coisas,como relaxar,meditar,respirar,visualizar,orar,vibrar nomes divinos,mantralizar,invocar,evocar,banir,etc.E tudo isso cria uma expectativa e ansiedade que se não for controlada desde o começo gera bloqueios durante as práticas e frustrações.Quando não,nos posicionamos em atitudes perfeccionistas de querer que dada prática saia perfeita ela não sai de jeito nenhum.Qualquer coisa,seja um barulho externo,calor,irritações ao longo do dia ou mesmo distrações leves já são uma causa de bloqueio quando não nos dispomos a tentar rever nossos conceitos e apenas praticar com sinceridade.

É como um voto monástico especial de um Bodhisatva,onde ele jura solenemente ajudar todos os seres sencientes a alcançarem a iluminação,mesmo que ele demore infinitas vidas,retornando sempre ao mundo para continuar o trabalho,sem expectativa.É um trabalho duro que leva tempo mesmo para gerar frutos.

É difícil até mesmo de imaginar como grandes adeptos como Crowley,Bardon,Regardie entre tantos outros tenham conseguido “chegar lá” e tocado o foda-se com o universo.Sempre vemos histórias de sucesso e nos sentimos um pouco fracassados quando não conseguimos executar um simples asana satisfatoriamente.Chega-se num ponto que mesmo os fracos com grande vontade conseguem alguma vitória sobre si mesmos.Algo que minha mãe um dia falou:”quando não se pode ser o maior,que se seja o melhor”.

Essa sutileza eu vejo na história de começo de carreira em Charles Stanfeld Jones,o tão famigerado frater Achad,considerado pro Crowley como o dito “filho mágico” das profecias do liber AL.Histórtias à parte,o treinamento que ele teve eu considero um dos mais inpiradores que existem(pô,cortar-se pra ter disciplina é muito roots cumpadi!Sem falar em meditar debaixo de chuva ou num cubículo foda no meio do mato!).Não porque ele obteve êxito,mas porque ele nunca desistiu,nunca deixou de tentar.E isso é CRUCIAL,porquê demonstra que nenhum empecilho interno ou externo deve ser maior que a vontade de vencer.

E acredite:faz sim toda a diferença.

Fontes

Aleister Crowley e a Prática do Diário Mágico-James Wasserman,Ed.Madras

Um Mestre do Templo -Relato e Diário de Charles Stanfel Jones,a prática diária e os registros de um iniciante dedicado

Conduta frívola de um pupilo -Carão fudido do Crowley com que não busca ser disciplinado.Um tapa em luva de pelica!

João São João -Diário do Crowley.A prática diária e os registros de um mestre experiente.

Outros artigos sobre o diário e práticas mágicas

Por que ter um diário mágico?-do blog O Alvorecer

Como criar um diário mágico -outro do O Alvorecer

Práticas mágicas diárias-do Prophecy,bardonista.Não vou muito com a cara dele por causa da visão dele muito purista e radical de magia,mas o artigo é muito bom.

Dicas para o treinamento mágico-do Veos,irmão do Prophecy.Estendo a ele a mesma opinião.

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