Os elementos e as vias alquímicas

Quando eu estudava química no Ensino Médio eu era fissurado para fazer medicina,tanto que eu estudava química e biologia por muitos livros,alguns até mesmo mais antigos,da década de 80,com fórmulas e disposições tão estranhas que depois fui me tocar que se referiam ao modo de disposição química segundo a  União Soviética,hehe!

Viagens à parte,o que me fascinou mesmo foi a própria alquimia,eu duvidava e mesmo assim me fascinava sobre as lendas de transmutar o chumbo em ouro.Eu lia O Alquimista do Paulo Coelho e Livro das Figuras Hieroglíficas do Flamel buscando um segredo oculto naquela porra toda.

Sinceramente,eu tive uma adolescência estranha mesmo.Eu mesmo me sinto anormal e com a sensação de “estranho no ninho” sempre às vezes.Algumas vezes me pegava frequentando centros de umbanda (o que era raro e um desafio para um moleque de 14 ou 15 anos) ou tentando decifrar o Apocalipse com um amigo meu com a finalidade de impedir o fim do mundo (que viagem!!!Se bem que eu sei hoje pra que serve o Apocalipse,mas vá bene!Fica para outra história).O interessante da alquimia nunca foi pra mim a transmutação,era algo que eu contestava em sala de aula até com o professor,batendo o pé no chão e falando que a fusão do urânio ou a fissão de outro elemento radioativo decaindo no holocausto do chumbo por si mesmo já seria uma transmutação da matéria.

O barato real da alquimia sempre foi a linguagem simbólica e hermética,todos os símbolos desenhados detalhadamente para falar e ao mesmo tempo ocultar.Alquimia segundo algumas fontes advém de  “Al Khem”,ou “A terra negra”,em alusão ao Antigo Egito,que foi um grande centro científico da Antiguidade.Os ditos Mistérios Egipcios guardavam essa arte codificada por meio dos símbolos.Posteriormente que foi incorporada ao modo europeu da Idade Média no modo de construir e desenvolver a química amalgamada com os mitos de passado.Independente de ser ou não verdade que seja possível a produção do ouro físico de metais menos nobres(Regardie em sua entrevista atenta para o fato de que ainda existem pessoas que praticam esse modo antigo),o fato é que o verdadeiro trabalho que o buscador tem é transformar o lixo que ele é em ouro.

O trabalho nunca foi externo em si,mas interno,reflexivo e meditativo.Tudo isso com o intuito de transformar o caráter do praticante e sublimar os defeitos do ego.O ego seria o chumbo a ser sublimado e do qual surgiria o mercúrio dos filósofos,a pedra dos sábios.Nicolal Flamel sabia disso como um devoto cristão que era e que compartilhava com os ideais rosacruzes de sublimação do homem na cruz dos elementos para a formação e desenvolvimento do ser crístico.

O paralelo que os céticos e os cientistas xiitas do academicismo condenam é o entroncamento entre espiritualidade e práticas científicas.A grande contradição nisso é que a maioria das teorias formuladas e grandes feitos na própria ciência foram realizados por homens e mulheres que criam em algum criador do universo,ou eram cristãos.Newton foi um deles.Outro foi Paracelso,o “médico excelso”,cujo trabalho em relacionar astrologia,química e método científico o colocou como pai da medicina moderna (não meus caros,não foi Hipócrates,esse fanfarrão cujo juramento que a maioria dos açougueiros que se dizem médicos fingem jurar),tanto alopática (a que todo mundo conhece,baseada nas leis codificadas pela química,biologia e física) quanto homeopática (a de tratamento alternativo).

Para se ter uma noção do nível de fodalidade do puto,num simples tratamento de anemia ele prescrevia injeções com quantidades baixíssimas de ferro ou ingestão de muita carne,por simplesmente a anemia ser falta de cólera e sangue,e sangue derramado ser um fato bélico associado a marte,cujo metal usado por esse planeta ser o ferro!Mais foda que isso é saber que a anemia mais comum é a “ferropriva”,causada por um defict de ferro para a formação da hemoglobina!Quem achar que é coincidência demais ainda nem sabe que os cuteleiros do oriente reforjavam espadas que foram usadas em batalha para aderir o ferro do sangue à estrutura metálica e deixá-la mais forte e resistente como o aço!Daí vindo a lenda de que toda espada tem desejo de sangue.

Isso do Paracelso ele destrinchava com um misto de alquimia,astrologia e fisiognomia,que era uma proto-ciência comportamental e fisiológica que estudava o indivíduo por meio das expressões faciais,com base em teoria dos quatro humores.Teoria essa que se originou com Empédocles,um pensador grego que usava dos quatro elementos e os relacionava aos quatro tipos de pessoas que poderiam tender a um dos tipos mencionados de forma positiva ou negativa.

O trabalho químico ou alquímico lida com os elementos infinitesimais que compõem o todo e o homem.Assim como na química se estuda o que compõem o universo existente,na alquimia os elementos são estudados de uma forma diferente,sendo mais simbólicos que literais,pois o propósito é atingir o espírito e desenvolvê-lo a tal ponto que não seria mais necessário o trabalho,pois o mesmo já estaria purificado.

Fogo,água,terra e ar são apenas meios de se trabalhar o que é mais metafísico que físico.Ou seja,nunca foram literais esses elementos no trabalho do alquimista de verdade.Quem assim supunha e trabalhava no sentido egoísta de obter riquezas seria apenas um “soprador” de fole e forja que ficaria o resto de sua vida mortal em busca de um sonho tolo.Tanto é que nos sistemas de iniciação mais conhecidos,como os da Golden Dawn e Astrum Argentum,os graus são trabalhados de forma que em cada um deles se veja e tenha experiências elementares.No primeiro degrau de qualquer ordem que seja,você é um mero mortal em busca de sabedoria,mas até provar isso focê é relegado ao papel de ser mortal em processo de transformação,cuja morte encerraria uma das etapas desse processo de transformação interior.

Tanto é que o grau de neófito na Golden Dawn era chamado de “filho-da-terra”.Dela viemos por meio da fecundação,cuja mistura de genes proporcionou nosso desenvolvimento e crescimento como seres compostos de carbono.E para ela voltaremos como matéria decomposta que será comida pelos vermes e posteriormente será o húmus necessário ao desenvolvimento de vegetais e outros seres.”Do pó viemos e ao pó retornaremos”.Mais do que isso,reflete as antigas iniciações simbolicas dos mistérios egípcios que envolviam a figura de Osíris que também fora crucificado (nas versões mais comuns esquartejado) e renasceu novamente como outra divindade de caráter solar.

Essa crucificação na cruz dos quatro elementos é a antiga morte iniciática que reflete uma das fases da fabricação da tintura ou da pedra,que era a putrefatio,a “putrefação”,a separação dos elementos agregados,a morte em si.Quando se renasce pelos elementos é quando se equilibra com estes e se obtém de alguma forma um “comando” sobre essas potências.

Inicialmente não se pensava exatamente nos quatro elementos,mas em três geradores que por união gerava o restante das coisas.

A começar pelos hebreus cabalistas,que criam ser o mundo gerado por três fatores,que eram a água,o ar e o fogo.A terra seria então o mundo gerado pela união equilibrada destes.

Segundo o Sefer Yetzirah,”as bases são vinte e duas letras,três mães(…)ou seja,Aleph,Mem e Shin,estes são o ar,água e fogo:silenciar como a água,sibilar como o fogo,ar como espírito,como a língua de um equilíbrio permanente entre eles ereto apontando o equilíbrio que existe (…) As três letras mãe (…) são um equilíbrio,em boa escala,o mal dos outros e o oscilante equilíbrio entre elos”

Com essa versão traduzida já da tradução do Mathers já dá para se arriscar alguma coisa.

Como são ditas “letras-mães” por serem geradoras das coisas,algo que a meu ver é um resquício da ancestralidade pagã dentro do corpo cabalístico do mito cosmológico da mulher como deusa criadora do universo por ter dado “a luz” a este.

O fato de serem três elementos torna bem semelhante aos textos de Lao T’sé,onde se diz do nada ser gerado o um,e deste o dois,e deste o três,que a partir daí foram geradas todas as outras coisas.

Outra semelhança interessante se dá ao associar esses elementos aos alquímicos mercúrio,enxofre e sal,na formação da pedra filosofal para a realização da Grande Obra.Daí podendo associar o “grande mistério” ao processo secreto,hermético e sofisticado de feitura da dita “pedra dos filósofos”.

A alquimia é filha da cabala,e por vezes eu tomo um pouco de impressionismo quando eu encontro um paralelo de sabedoria desses antigos cabalistas até com as modernas hipóteses de origem da vida em nosso planeta em “e,no início,quanto ao macrocosmo ,os céus e a terra foram criados a partir do incêndio (…)”,coincidentemente pode até mesmo ser feita referência a tão cogitada explosão geradora do universo que ocorreu há 4,5 milhões de anos sob a tese do hipotético “Big Bang”.

“(…)a terra primitiva da água e do ar foi formado á partir do espírito,que fica sozinho no meio e é o mediador entre eles”

A teoria abiogênica tem como pressuposto que os coacervados,primeiros protótipos da célula,surgiram em meio a um demorado processo químico (terra primitiva) no interior dos mares primevos da formação terrestre (água primitiva) em contato com antigos gases como amônia e metano (ar primitivo) que associaram-se na forma dos aminoácidos por causa das descargas elétricas das tempestades (espírito Shin-mediador).

Esses são exemplos de entroncamento entre espiritualidade e ciência,seja ela metafísica ou linguística.A relação existe.E é um estudo inicial dos elementos que pode ser feito além do ponto de vista psicológico de trabalhar os humores,saindo daquele manjado esquema de serem quatro os elementos formadores do mundo.Em alquimia chinesa,por exemplo,os elementos varia de cinco a oito,dependendo do diagrama utilizado.

As coincidências são tantas que os chineses tinham lendas acerca da terra dos oito imortais,em que havia uma árvore que gerava frutos que,se ingeridos,proporcionavam a vida eterna.Além da busca pelo próprio elixir dos imortais.Isso comparando com as lendas do paraíso de Adão e Eva e os pressupostos básicos de alquimia medieval mostra que esta,juntamente com a cabala,tem caráter universal,mudando somente alguns detalhes por conta da região em que se praticava e a forma como se praticava.

Enquanto no ocidente se trabalhava em paralelo com o desenvolvimento metalúrgico para se depurar as substâncias,na China sua aplicabilidade era focada nas ervas e chás lendários.Na Índia o foco nunca deixou de ser interno.A prática alquímica foi internalizada no indivíduo,sendo a própria pedra do sábios a ser lapidada pelas práticas de cunho meditativo,assim como na corrente do taoísmo.

Símbolos,glifos,metáforas.Tudo isso direcionado para o praticante perceber que ele tinha de se transmutar mesmo em algo melhor observando como isso era processado na natureza.Com o tempo se criaram várias vias e métodos de se alcançar esse objetivo.Alguns ficaram no esquecimento,outros ainda não foram decifrados totalmente.De todas pode-se arriscar em resumí-las em duas vias.

A primeira das vias conhecidas e praticadas foi a de caráter úmido,de fogo brando e cujo tempo de feitura da tinta demorava um longo tempo,num processo estável e seguro.Isso em linguagem magística é próximo do que conhecemos por RHP,”Right Hand Path”,o “Caminho da Mão Direita”,onde o magista de forma devocional busca a pedra em si pela emoção e devoção para se reintegrar ao Criador e assim recuperar o estado de beatidude perdido quando seus ancestrais Adão e Eva pereceram em pecado.

A outra via,menos comentada por causa de seu caráter perigoso é conhecida como a via seca,uma via acelarada que rapidamente se alcança a fabricação da pedra,mas não sem riscos,por esta não levar elementos de caráter reagente ou solvente,deixando-a muito instável.É uma via de razão e vibração pela auto-afirmação que muito se aproxima do que conhecemos por LHP,o “Left Hand Path”,o famigerado e temido “Caminho da mão esquerda”,que abrange as mais diversas doutrinas,como satanismo,luciferianismo e thelema.

Não devemos nos prender aos estereótipos,pois muitas vezes pensamos que a vida que escolhemos é o único caminho perfeito a todas as outras pessoas.Isso é um erro muito grande de percepção.Como você garante que seu caminho é o verdadeiro se você nunca conheceu a verdade de fato?!Em vias alquímicas elas também tem seus riscos…muito se fala mal do LHP e seus riscos mas se esquecem que esquizofrenia,megalomania,fanatismo e  tornar-se um lunático é um risco de loucura real dentro da via úmida.

Quando não pensam que thelema é unicamente ir contra o universo como o luciferianismo e o satanismo.Deve ser entendido que existem vias dentro de vias.Thelema é de esquerda,mas diferentemente de outras correntes,pode muito bem se buscar nela a reintegração com o Universo ao invés de divinização e separação total com “O Criador”.

Adentrar nas profundezas de si mesmo,enfrentar seus piores demônios e encontrar a pedra que está oculta em ti mesmo.Essa é a natureza de V.I.T.R.I.O.L,posteriormente chamado vitríolo,antigo nome dado ao ácido sulfúrico.Como lidar com este veneno?A resposta está no caduceu de Hermes.

Fontes

Alquimia,por Stanislas Klossowski de Rola,Edições Del Prado

O Livro das Figuras Hieroglíficas,de Nicolal Flamel,Ed.Planeta

Outras Fontes

Alquimia – Um pequeno e-book em PDF do 4shared na forma muito,mas muito resumida.Mas nem por isso menos instrutiva para noções iniciais.

Alquimia – Um artigo do blog O Alvorecer,do Jeff Alves

Os alquimistas e a ciência – Artigo também do Jeff pelo Teoria da Conspiração

Alquimia – Um artigo da Wanju Duli sobre o tema em Ocultismo Magnífico

Liber Librae – “O Livro do Equilíbrio”,leitura obrigatória a todo que busca se equilibrar com os elementos

Full Metal Alchemist – Um anime (desenho animado japonês) que trata do tema.Eu recomendo porque casa bem a arte de graphic novel japonesa animada com elementos de ciência e ocultismo e uma lição importante sobre a busca pela verdade e pela vida de um ente querido

Mundo Avatar – Site dedicado ao desenho em formato cartoon da Nickelodeon,de muito bom gosto e que dá como pano de fundo a relação com os elementos

Elementos em diversas tradições – Um link em inglês sobre o assunto

Post Scriptum-Aos demais peço perdão se viajei muito na batatinha.Este é um artigo mais complexo que o comum e veio de sopetão entre o sono e a vigília.

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5 respostas para Os elementos e as vias alquímicas

  1. Niten disse:

    Mais um ótimo artigo. Parabens.

  2. Vortek disse:

    Realmente, ótimo texto! Vida longa e prospera para este blog!

  3. AbraxasImago disse:

    Grato pela consideração Vortek!Espero que prospere e ajude aqueles que buscam a iniciação!

  4. Aspargo disse:

    Muito bom saber que thelema é centro esquerda. Abraços.

    • AbraxasImago disse:

      Nãe que seja obrigatoriamente centro esquerda…mas uma via racional mesmo.Muitos querem seguir a via do amor pela devoção para se unir.Acho (opinião minha,posso estar errado) que é a via do amor pela razão mesmo.

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