Treinamento,diário e prática real

C.S.Jones meditando no asana dragão

Não sou lá a melhor pessoa para abordar esse tipo de assunto.Minha experiência maior são dos erros que cometo de vez em sempre no treinamento diário.Foi muito difícil no começo passar da inércia que a teoria e a abstração intelectual proporciona a algo de caráter prático e objetivo.

Uma coisa é você falar sobre o poder e simbolismo do círculo.Outro é você traçá-lo e assumir a responsabilidade pelas consequências e manter o auto-controle.Isso porquê a  mente sofre o primeiro impacto da realidade de forma avassaladora.

Foi assim com minhas primeiras práticas com o ritual menor do pentagrama e técnicas de relaxamento.Uma bosta para ser sincero,errava a vibração e as palavras e só fui aprender a executá-lo com o mínimo de decência na quinta semana de prática e com muitas ressalvas.Hoje passo por uma fase mediana de treino,o que é o ensejo do tópico de hoje.

Algo que é muito recomendado em magia moderna é o diário mágico.O propósito do diário é estimular a reflexão e auto-análise,assim como registrar as práticas diárias e o desenvolvimento do praticante na senda.

O porquê disso varia conforme a vertente de magia,mas em comum todas compartilham do fato de que o diário dá uma noção real das experiências pessoais do praticante.A experiência mística ou mágica sem um mínimo de questionamento pode levar o estudante ao erro de julgamento,tornando-o distraído e influenciável aos fatores e entes externos a ele.

Ao contrário do que pensam,no período Medieval esse era um costume bastante difundido,mudando apenas o formato.Isso porquê a visão do mago medieval de realidade não envolvia o aspecto mental em si e sim uma dicotomia entre o material e espiritual.Em se tratando de diário os grimórios não cumpriam tão satisfatóriamente a função por serem mais sistematizados e objetivos quanto aos tipos de práticas expostas.A única exceção que eu encontrei a essa regra foi no “livro dos espíritos”,uma espécie de registro científico e paulatino de evocações.Esse livro deveria ser dedicado somente àquele tipo de prática e aos espíritos conjurados para que desse poder a ele e ao mago operador.Dentre esses magos que explanaram sobre se enquadram Francis Barret,Agrippa e Jonh Dee.

O diário é a aplicação prática da teoria seguindo um método e racionalizando sobre este para chegar ao objetivo pretendido ou descobrir algo novo.Do mesmo modo que no “livro dos espíritos”,a prática constante do diário não somente eleva a força do objeto como também a do próprio praticante.

O modo de registrá-lo varia conforme o praticante.O ideal é que tenha data,local e hora.Informações adicionais como efemérides astrológicas,estado de espírito,emocional e físico,são muito bem vindos.O essencial é que nada seja omitido ou esquecido,pois toda e qualquer informação registrada é importante para posterior estudo.Os relatos podem ser tanto de caráter rotineiro quanto de prática assim como a reflexão é aconselhada como uma forma básica de psicoterapia.

Independente do tipo de caminho escolhido pelo buscador todos eles compartilham de práticas de relaxamento,meditação e oração para o iniciante se habituar a praticar e forçar a mente a ficar focada e poder ver além do que os olhos enxergam.Essa talvez seja a parte mais chata e dura de se tratar porque mexe com o orgulho,a preguiça e os sentimentos de cada um.

Treinar a mente chega a ser mais trabalhoso que treinar o corpo.Isso porque,diferente do corpo,a mente é intangível e indefinível.Não dá para se ter certeza onde ela começa ou termina especificamente e até onde vai suas influências aos outros e do meio externo ao subconsciente.A melhor imagem que eu encontrei para definir a mente é a do deus egípcio Toth e seu macaco mascote.

Toth representa o deus-escriba do conhecimento e magia,muitas vezes associado a mercúrio(e algumas a lua) e aos processos mentais.O domínio da mente em si.O seu macaco mascote era representado como um ser que por pura pirraça causava caos e confusão aos homens,cabendo a um papel bastante correlato com a mente rebelde a ser disciplinada pelo seu senhor.Essa tentativa de cominar a mente e focá-la na experiência espiritual talvez seja o maior desafio do magista iniciante.

Isso porquê são muitas coisas,como relaxar,meditar,respirar,visualizar,orar,vibrar nomes divinos,mantralizar,invocar,evocar,banir,etc.E tudo isso cria uma expectativa e ansiedade que se não for controlada desde o começo gera bloqueios durante as práticas e frustrações.Quando não,nos posicionamos em atitudes perfeccionistas de querer que dada prática saia perfeita ela não sai de jeito nenhum.Qualquer coisa,seja um barulho externo,calor,irritações ao longo do dia ou mesmo distrações leves já são uma causa de bloqueio quando não nos dispomos a tentar rever nossos conceitos e apenas praticar com sinceridade.

É como um voto monástico especial de um Bodhisatva,onde ele jura solenemente ajudar todos os seres sencientes a alcançarem a iluminação,mesmo que ele demore infinitas vidas,retornando sempre ao mundo para continuar o trabalho,sem expectativa.É um trabalho duro que leva tempo mesmo para gerar frutos.

É difícil até mesmo de imaginar como grandes adeptos como Crowley,Bardon,Regardie entre tantos outros tenham conseguido “chegar lá” e tocado o foda-se com o universo.Sempre vemos histórias de sucesso e nos sentimos um pouco fracassados quando não conseguimos executar um simples asana satisfatoriamente.Chega-se num ponto que mesmo os fracos com grande vontade conseguem alguma vitória sobre si mesmos.Algo que minha mãe um dia falou:”quando não se pode ser o maior,que se seja o melhor”.

Essa sutileza eu vejo na história de começo de carreira em Charles Stanfeld Jones,o tão famigerado frater Achad,considerado pro Crowley como o dito “filho mágico” das profecias do liber AL.Histórtias à parte,o treinamento que ele teve eu considero um dos mais inpiradores que existem(pô,cortar-se pra ter disciplina é muito roots cumpadi!Sem falar em meditar debaixo de chuva ou num cubículo foda no meio do mato!).Não porque ele obteve êxito,mas porque ele nunca desistiu,nunca deixou de tentar.E isso é CRUCIAL,porquê demonstra que nenhum empecilho interno ou externo deve ser maior que a vontade de vencer.

E acredite:faz sim toda a diferença.

Fontes

Aleister Crowley e a Prática do Diário Mágico-James Wasserman,Ed.Madras

Um Mestre do Templo -Relato e Diário de Charles Stanfel Jones,a prática diária e os registros de um iniciante dedicado

Conduta frívola de um pupilo -Carão fudido do Crowley com que não busca ser disciplinado.Um tapa em luva de pelica!

João São João -Diário do Crowley.A prática diária e os registros de um mestre experiente.

Outros artigos sobre o diário e práticas mágicas

Por que ter um diário mágico?-do blog O Alvorecer

Como criar um diário mágico -outro do O Alvorecer

Práticas mágicas diárias-do Prophecy,bardonista.Não vou muito com a cara dele por causa da visão dele muito purista e radical de magia,mas o artigo é muito bom.

Dicas para o treinamento mágico-do Veos,irmão do Prophecy.Estendo a ele a mesma opinião.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Regardie,trabalho duro e Grande Obra

Trabalho de um alquimista na obtenção do mercúrio dos filósofos

Um dos grandes atrativos que a magia possui ao interessado no tema,independente de ser iniciante ou iniciado é o poder e fascínio que ela exerce sobre o que conhecemos por realidade.

Nos sentimos muitas vezes frustados e presos aos grilhões invisíveis que a realidade nos impõem.Trabalho,estudo,contas a pagar,relacionamentos,problemas familiares,desejos,emoções,aspirações e ambições pessoais…tudo isso misturado num mar caótico que afeta nosso modo de viver e nossa percepção do que importa de verdade.Estamos presos a nossas próprias expectativas pessoais num ciclo vicioso interminável de buscar prazer e agradar a todos e ser feliz e ter isso ou aquilo.

Esse tipo de postura acaba por causar uma rachadura no interior de qualquer pessoa.Com isso surgem as opções ou paleativos para a dor e o sofrimento em saber que nem tudo é como planejamos e estamos sujeitos a morte,doença e tristeza e evitar pirar e cair numa crise profunda que nos mate por dentro.

Muitas das pessoas se enterram na materialidade e alienação por ser o caminho mais imediato.É mais fácil não buscar a verdade e nos divertimos com o placebo diário do pão e circo proporcionado pela mídia e pelo consumismo.A melhor imagem disso é a do domingo,um dia geralmente entediante e voltado mais ao descanso e lazer.Esse lazer sem planejamento gera o ócio e a puerilidade que atesta a frase “mente vazia,oficina do diabo”.

De fato,é muito cômodo estar com a bunda colada no sofá assistindo programa de auditório e continuar consumindo em vez de simplesmente ler um livro e procurar aprender.Esse tipo de escolha é um placebo que inevitavelmente não surtirá efeito,porque a vida espiritual e a busca sempre baterá a sua porta nos piores momentos onde a morfina diária não surtirá mais efeito e a cera os ouvidos estarão atentos em escutar algo que antes não era dado atenção.

Outra opção é a busca metafísica,muitas vezes de gente impressionada que se limita aos ditames gerais dos grandes credos e aceitam como verdades por medo do que está desconhecido aos seus sentidos mundanos ou de gente lunática que usa como veículo de fuga criando uma realidade pessoal alheia a real que lhe seja conivente e conveniente as suas expectativas egóicas como uma criança mimada.

Sei que não é fácil escolher e sei que muitas vezes somos forçados a fazermos escolhas que muitas vezes não nos agradam.Mas acho que não se trata somente de fazer o que é pedido ou agradável,mas o que é estritamente necessário que seja feito.

E o poder nos atrai.Em magia não seria diferente.Afinal todo mundo quer ser foda,tocar dig din enquanto conjura forças ocultas,influencia as pessoas,toca o terror com pantáculos,corta a chuva(como muitos magos galhofas que eu conheço…ainda bem que eu conto nos dedos,porque vai ficar ruim se passar da contagem),ser imortal,ser belo e exercer fascínio e controle mental…

Não é esse o poder da magia.E Israel Regardie bem sabia disso quando deu cara a tapa e atravessou o Atlântico para estudar com Crowley magia e ser seu escravo secretário pessoal.Foram alguns dos anos em que ele mesmo aprendeu bastante coisa quando ficou como pupilo da Besta o suficiente para ter cortado relações e reatado a “amizade”(a ponto do Crowley tê-lo chamado de plagiador e dele ter chamado o Crowley de bicha enrustita…ah o amor!).Mesmo assim em todas as suas obras ele dedicou ao antigo mestre os ensinamentos aprendidos apesar dos conflitos.Nas palavras dele:”Devo a ele tudo que sou”.

Depois que ele começou a fazer parte da Stella Matutina (um dos antigos ramos da Golden Dawn) e comparar o tipo de visão que se tinha entre a vida iniciática e a vida profana,ele via que tudo isso não passava de uma besteira purista que atrapalhava em vez de auxiliar o  buscador sincero.Posição essa diametralmente oposta a de Eliphas Levi (como expliquei em meu artigo anterior).A busca do iniciante no caminho é iniciada pelo fascínio que poder da prática mágica poderia proporcionar ao seu cotidiano e poderia ser purificada em uma busca por um poder maior.

Esse poder maior não é o de domínio sobre algo externo a pessoa.Pelo contrário.O verdadeiro poder é o de controle sobre si mesmo.Nós não somos perfeitos,mas queremos ser,por mais que seja impossível alcançar essa perfeição que idealizamos e acabamos por nos aproximar desse objetivo quando nos transformamos em pessoas melhores.Muitas vezes os incautos usam a magia como fuga para a realidade,como se ela resolvesse todos os seus problemas.Acredite,não resolve,facilita,mas não resolve imediatamente.Isso porquê quem tá em começo de jornada quer logo as coisas de imediato.Eu mesmo sei bem disso,sou um tipo de pessoa impaciente com muitas coisas e com o tempo fui diminuindo esse tipo de expectativa com o decorrer das práticas diárias.

O homem se encontra nas trevas da ignorância e deve ser posto a luz,para isso ele deveria se purificar num processo de transformação diária e constante.Esse trabalho duro é o que é prescrito no começo de qualquer ordem de base magística,em especial a A.’.A.’. e a G.’.D.’.,por mais diversos que sejam os métodos entre elas e das quais Israel foi influênciado.

Além de grande magista,foi também um ótimo escritor e responsável pelo ressurgimento e recosntrução dos ensinamentos da Golden Dawn no clássico livro de mesmo nome.Sem ele muito do que foi resgatado teria sido restrito ou perdido.Ele entendeu que um conhecimento desse porte tinha de estar para as gerações vindouras.

Poder da Magia

Poder da Magia

Mas de todas as suas grandes obras a que mais me agradou foi O Poder da Magia justamente pela sua objetividade e simplicidade.A obra eu recomendo até a medula justamente por tratar de um posicionamento equilibrado acerca do caminho espiritual do buscador e o poder de transformação interior que deve ser cultivado nele.

Mesmo que muita coisa dita esteja em nível teórico,a obra pode servir como um ótimo guia explicativo do porquê de determinadas práticas e o objetivo maior delas.Me lembro bem do que ele falou na introdução de Golden Dawn (uma puta introdução de 80 páginas!!!Que foda!!!) em que ele recomendava o trabalho duro,pois teria recompensa inevotável ao longo dos anos,chegando a garantir que se fosse feito com afinco,o praticante chegaria a ter a experiência espiritual equivalente a de um Hierofante.

Ainda no livro ele faz correlações mais diversas entre as práticas do Ocidente e Oriente de alcançar os estados de consciência espiritual,mas dando uma ênfase maior no trabalho teurgico e ocidental de espiritualidade justamente pela excessiva valorização aos ensinamentos orientais que entram em choque com o estilo de vida que temos atualmente.

O trabalho espiritual que resume a Grande Obra pode ser resumido em transmutação.Essa transmutação se daria pela auto-análise e auto-conhecimento sincero e franco do praticante.Isso se deve a formação de Regardie em psicologia e quiropraxia,aliando as teorias de Jung e Reich com a magia moderna às práticas psicoterápicas.

De fato um dos grandes empecilhos para o desenvolvimento espiritual é o fator de controle emocional e mental sobre si mesmo.Em posts anteriores eu falei brevemente sobre isso por ser um tema um tanto longo,pois magia e suas consecuções espirituais alteram substancialmente a percepção da realidade objetiva do praticante,podendo causar muita dúvida sobre o quão sutil ou real podem se dar os efeitos das operações.

Em vários pontos da obra isso é abordado.No começo ele compara ao aperfeiçoamento do eu em diversas tradições espirituais e como exaltá-lo ou obliterá-lo para alcançar o verdadeiro “Eu superior”,que ao modo do Ocidente é chamado de Sagrado Anjo Guardião.E isso na maioria das vezes incomoda o ego que pode correr o risco de se desenvolver de forma anômala se não sofrer uma observação e cuidado meticuloso.

Essa anomalia se faz presente na forma de descontrole emocional,egoísmo,soberba e discussões fúteis de motivos mesquinhos que são gerados por essa ignorância de percepção da realidade.Aliás,que nunca ouviu falar de gente soberba na vida?Dentro do ocultismo e esoterismo é cheio de gente que se diz encarnação de Crowley,de Cristian Rosenkreutz,que idolatra Samael Aun Weor e chama todo mundo de magista negro,que pratica tantra pra comer o rabo alheio,que inicia  na maçonaria a troco de milhares de reais pra deixá-lo mais condecorado que um marechal….

…tantos exemplos que mesmo a história se mostra as vezes recheada de tais exemplos.Assim foi na clássica Golden Dawn,sustentada num castelo de mentiras,comandada por um homem que se provou insensato e caiu em desgraça por falta de trabalho interno.Nem Crowley escapa,ele mesmo quebrou a cara no fim da famigerada loja de Londres em seu embate invejoso com o Yeats e no fim da vida reconheceu que foi um puto sacana,apesar do mérito fantástico da consecução espiritual.Não se trata de moral(que é uma coisa relativa,acredite),mas de descontrole,só isso.

O mesmo se deu com Regardie ao ver se esfacelar a Stella Matutina por picuinhas de controle hierárquico.Eu mesmo me ponho como exemplo,já conheci fanático,lunático e gente louca no sentido de expor thelema de forma dogmática goela abaixo do povo,com direito a ego trip escandalosa,dizer que “Crowley é Deus” e por a pica em rede social.Esse tipo de interferência na vontade alheia é muito comum quando se falta o trabalho psicoterápico.

A arte da magia não somente proporciona o poder de transformação pessoal como o de cura.Essa arte da verdadeira cura é o que objetivamos,a cura para o sofrimento que tanto buscamos e atingir a “sabedoria sublime e a felicidade perfeita”.”Grandes poderes,grandes responsabilidades” e trabalho duro.Eu me vigio constantemente nisso por ser um indivíduo excessivamente colérico e melancólico,irado e depressivo e depois de muito apanhar no treinamento como iniciante no caminho tenho obtido um pouco de paz interior,que vale mais que qualquer tesouro no momento.

Grande Obra…quem disse que seria fácil?Trabalhemos vagabundos!!!

Fontes

O Poder da Magia -Israel Regardie(download pelo 4shared,ele já bateu a caçuleta!Não me venham com direitos autorais seus putos!)

Entrevista feita com ele pelo Hyatt

A Arte da Verdadeira Cura

Gestos de Equilíbrio-Guia para a percepção,a autocura e a meditação-Thartang Tulku Rinpoche,Ed.Pensamento

Até a próxima!

Ps-Feliz aniversário André Bassi,tudo de bom procê!Dedico a tua pessoa essa postagem,se não fosse você e a galerinha do mal do Espaço Nuit parte desse projeto não teria sentido.Obrigado ^^

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Levi,dogmas e magos fanfarrões

Navegando pelos fóruns da web eu notei um fenômeno curioso quando iniciantes pediam indicações de livros de ocultismo para se desenvolverem na senda.A mais comum,senão a mais clássicas das indicações dadas pelos “veteranos” foi a dos livros do Levi.Eu mesmo caí nesse engodo no começo da minha jornada e aos quinze anos já ter lido a obra e acreditado que a magia se processava daquela forma misteriosa e magnífica.

Afinal,o que tem de errado nesse tipo de indicação?

A princípio,nenhum.O problema é a contextualização da obra.O estudante quando lê algo antigo acaba por se esquecer de que aquilo foi produzido por uma mente que vivia numa época estranha a sua,e direcionadas por mentes contemporâneas as do autor.Não é fácil tentar justificar ou entender no começo,mas deve-se ao menos tentar respeitar a sabedoria que existe e na qual foi imantada a obra.Quiçá a própria Bíblia,tão antiga,tão modificada,uma colcha de retalhos historiográfica,teológica,mitológica…e ainda sim respeitada ou ao menos tolerada.

Assim deve se ter com Levi.Eliphas Levi,pseudônimo cabalístico para Alphonse Louis Constant.Francês que viveu no século XIX e é aclamado,não sem algum mérito,como um dos grandes mestres da magia de sua época.Sua biografia pode ser melhor vista no Ocultura e no Project Mayhem para me poupar trabalho e tempo.

O problema do Levi não é ele ser um mestre ao modo dele,mas ser exageradamente aclamado como tal sem o mínimo de questionamento.Muitos dos ditos “veteranos”(na verdade fakes de comunidades virtuais que se escondem atrás de identidades falsas para não revelarem a própria mediocridade) o recomendam sob o ar da pureza,como um verdadeiro iniciado,algo a ser seguido na risca.

Um recado para os corajosos que querem segui-lo à risca:boa sorte.Como diz meu pai:”se deu bem,meus parabéns.Se deu mal,se lasque só”(jeito bastante carinhoso de demonstrar carinho e cuidado para com o filho).

Levi viveu no século XIX(no fim,na verdade) e teve como grande influência os cabalistas,astrologos e teurgos do período Medieval.O mérito que ele teve como teórico foi expor o apurado que antes era esparço de tradições esotéricas,mitos populares,lendas e sistemas antigos que dificilmente seriam resgatados por outrem.Ele teve participação bastante ativa no meio ocultista de sua época,mas não diretamente ligado a nenhuma sociedade iniciática como maçonaria,ordens rosacruzes e martinistas,etc.Era certo que ele mais tinha mestres e discípulos que estudavam e se auxiliavam mutuamente.

Mas não foi assim tão grande novidade.O que Eliphas fez Barret e Agrippa já o faziam muito antes.O seu sucesso foi ter popularizado a magia não mais como um engodo miraculoso de prodígios misteriosos ou taumaturgias diabólicas de espíritos peversos.Para Levi,”a magia é a ciência tradicional dos segredos da natureza,que nos vem dos magos”.

Notem bem a sutileza,por muito tempo a magia foi considerada um artifício do demônio durante o Medievo.O que Levi fez foi por o crivo da razão sobre o conceito e fazê-lo retornar ao estado original,pois a mesma nunca deixou de ser ciência mas,diferente das artes e ofícios mundanos,uma ciência de caráter oculto aos tolos ou perversos.Tanto é que a partir desse ponto surgiu o conceito de “ciências ocultas” ou ocultismo,o grande trunfo e calcanhar de aquiles da modernidade.

A impressão que o termo ocultismo passa hoje é de algo que é escondido por ser proibido.Afinal,se é escondido então boa coisa não seria,não é verdade?A diferença é sutil,porque o escondido passa a idéia de ilicitude,ao invés de sigilo,que impõem respeito e discrição sobre os estudos.Ele pôs nesse último sentido por causa do contexto,pois a magia sempre foi combatida pela Igreja Católica e o espiritismo e positivismo estavam se popularizando.

De um lado o positivismo,doutrina de Aguste Comte que tinha inspiração católica e impunha um plano de ciência cética aplicada na organização da sociedade.Do outro lado do corner,os fenômenos espiritualistas das mesas girantes com seus comumentes casos de charlatanismo ou ataques por parte da Igreja Católica que posteriormente culminariam no espiritismo de Allan Kardec.A magia tinha de ser preservada ou cairia nas mãos dos charlatões ávidos de dinheiro ou escárnio por parte dos céticos ou da própria religião.

“A magia (…) é feita para os reis e padres;sois padre?sois rei?O sacerdócio da magia não é um sacerdócio vulgar e sua realeza nada tem que bater com os príncipes deste mundo”.Com esse raciocínio Levi cortava o mal dos céticos ou incrédulos quanto as artes mágicas e punha cal em cima dos tolos e curiosos ao avisar que “No caminho das altas ciências ,não convém empenhar-se temerariamente,mas,uma vez no caminho,é preciso chegar ou perecer.Duvidar é ficar louco;parar é cair;voltar para trás é precipitar-se num abismo”.

Isso é facilmente compreendido ao se observar que Eliphas teve uma profunda formação teológica por ter sido seminarista e quase tomado votos sacerdotais.Tanto é que o mesmo defende o catolicismo como a verdadeira doutrina redentora dos magos e que limpava seu passado sujo das práticas teurgicas pagãs.Sua formação como ciêntista chega a ser “limitada”,devido o excesso de linguagem hermética e rebuscada ou uma certa atitude literária de instigar o leitor de suas obras a temer magia como algo santo.Diferente do Papus,que foi médico por formação e era mais clínico em suas instruções.

Com esse tipo de linguagem,Levi peca pela didática e pela objetividade em suas obras.Mas não sem o mérito de ter sido ao menos o pioneiro em instituir a magia publicamente como ciência após um período de silêncio da morte de Barret e Agrippa,mestres que o precederam e dos quais ele retira grande influência.Tanto é que “Para chegar ao Santum Regnum,isto é,a ciência e ao poder dos magos,quatro coisas são indispensáveis:uma inteligência esclarecida pelo estudo,uma audácia que nada faz parar,uma vontade que nada quebra e uma discrição que nada pode corromper ou embebedar”.

O que foi citado acima e o conjunto da obra influenciou e animou muito Aleister Crowley a abordar(juntamente com o que ele captou de melhor de outras vertentes) sua definição de magick e o protótipo do que hoje se tornou o Iluminismo Científico.

Dogma e Ritual de Alta Magia

Sua obra mais evidente foi Dogma e Ritual de Alta Magia,livro no qual tinha a proposta de expor uma compilação teórica e prática da magia e de como ela se processa.Isso em teoria,é claro.O livro é de difícil leitura e compreensão se o leitor não estiver atento para a época em que foi produzida a obra,sendo muitas vezes um bom sonífero aos insones.A obra é dividida em duas partes,cujos capítulos faziam referências numéricas,esotéricas e alquímicas com as  correspondentes letras do alfabeto hebraico e arcano do Tarot.

Esse é outro trunfo do mago:codificar sistemas como o tradicional salomônico(de teurgia e goétia),alquimia,rosacrucianismo,neoplatonismo e catolicismo numa coerente relação iniciática com o Tarot e seus arcanos.Trabalho que foi posteriormente aperfeiçoado por adeptos como Mathers na construção do sistema mágico da Golden Dawn e revisado por Crowley e incluído no currículo para aqueles que desejam entrar na Astrum Argentum.

Fora isso o Levi “cagou o pau” em muitos quesitos.O prático foi o primeiro deles.Francis King(pseudo-historiador e não-mago) relata em Magia-A Tradição Ocidental que “As primeiras tentativas de Lévi na magia ritual foram realizadas em Londres e tiveram como objetivo invocar o espírito do taumaturgo pagão Apolônio de Tiana;não pode se afirmar que tivessem um grande êxito:praticamente os seus únicos resultados duradouros foram “uma peculiar rigidez do corpo e desmaios passageiros”.Parece provável que estes desagradáveis efeitos físicos fossem consequência de uma leve intoxicação com monóxido de carbono,dando que os ritos de invocação(evocação,o autor se equivocou) incluíam a queima de carvão,ervas e de diversos incensos em um espaço fechado muito reduzido(…)Não deixa de ser curioso que Lévi,quem costuma ser considerado o mago mais destacado de sua geração,quase não praticasse magia:este fato se deve ao seu labor como teórico.Mas nem sequer neste campo foi original”.

King simplesmente destrói a imagem de Levi como o mago perfeito.Isso é ótimo,porque não existem mestres perfeitos.O erro das pessoas em geral é considerar o puro e o perfeito como o bom.A pureza deve ser da intenção e não da aparência.Um copo de veneno pode ser mais puro que palavras de afeto ditas com propósitos mesquinhos.

O fato é que Levi foi um cara frustado por não ter se tornado sacerdote e descontava sua pureza em magia.Outro ranço do mago foi sua relação perante a mulher.O conservadorismo machista e patriarcal estava em voga no século XIX e ele fazia questão de explicitar isso com coisas tolas como “Cada cinco dias,depois do ocaso do sol,embebedar-se com vinho no qual terá feito infusão,durante cinco horas,de cinco cabeças de papoulas pretas e cinco cabeças de linhaça triturada:tudo contido numa toalha que tenha sido feita por uma prostituta(em rigor,qualquer toalha serve,se for feita por uma mulher)”(negrito meu).Isso é resultado e ranço de suas decepções pessoais nos campos da política(foi antimonarquista socialista e anarquista,segundo King) e religião(abandonou a batina) que acabaram por refletir no campo pessoal,com sua mulher o deixando( e o chifrando para deixar de ser besta) só com seu misto de pureza e pecado.

Outra tolice é a oposição clássica que até hoje repercute em magick é a a magia branca e negra.Não entrarei nesse tema ainda,mas essa parvoíce sem sentido é posta ao autor descrever uma operação de goétia ter como quesito o indivíduo ter “(…) uma ignorância aparente ou natural(…)uma fé cega em tudo o que não é crível” entre outras sandices.

Isso é tão besteirol da parte dele que ele mesmo não seguiu os conselhos básicos de evocação em magia salomônica e quase se lascou de vez ao tentar evocar uma entidade que nem existia mais (Apolônio de Tiana) ao mesmo tempo que ironicamente execrava as práticas espiritualistas das mesas girantes como fraude!Que diacho de mago é esse que tem medinho e nojinho?!Tudo bem que eu não tenho nervos de aço,prática de evocação e muito menos experiências mais fortes com entidades externas a mim,mas as atitudes incoerentes dele revelam o despreparo total ao estudante que o siga a risca sem um mínimo de bom senso que provam incontestavelmente como recomendação aos iniciantes.JAMAIS.

Agora,a obra deve ser lida porquê,além do bem e do mal,ela contém algumas perolas importantes a quem tem já uma experiência mediana e avançada nos estudos.

Fontes:

Dogma e Ritual de Alta Magia-Eliphas Levi,Ed.Pensamento

Magia-A Tradição Ocidental-Francis King,Edições Del Prado

Livro para leitura:

Dogma e Ritual de Alta Magia

(Dica de quem já leu:Leia os capítulos iguais de Ritual e Dogma seguidos.O conteúdo é o mesmo e a leitura se tornará mais fluida,exceto no finalzinho,que vai ficando mais pesado.Procure relacionar os capítulos lidos com o estudo individual dos arcanos que algumas descobertas interessantes podem surgir)

Outras fontes de consulta:

Artigo da Wanju Duli sobre Levi

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Primeiros passos na jornada

estrada do caminho de São Tiago de Compostela,com os devidos créditos de nossorumo.com

Uma jornada é bem dizer um caminho.Um caminho que se percorre para se chegar a um fim.Pronto,essa é a definição clássica.Mas vai muito além disso.

Eu bem me lembro de quando tinha 13 anos na sétima série do colegial e juntava o dinheiro da merenda para comprar livros de rpg ou livros de ocultismo barato em bancas,atravessava boa parte da cidade a pé para comprar numa antiga loja de esotéricos alguns livros toscos sobre o assunto.

Isso é uma jornada.Uma jornada menor dentro de uma maior que se perpetua a um fim,aparentemente,que não existe.De fato esse é o momento de indecisão de todo iniciante na senda justamente por não saber por onde começar ou como começar.

Observe bem,se você está lendo isso não é por acaso do destino.Não seja burro,você está lendo isso porque você quer respostas e está buscando chegar a elas.Você sabe melhor do que eu que poderia muito bem estar satisfeito com sua vidinha piegas de ficar em casa e assistir o Faustão voltando duma missa tristonha de gente carola e muitas vezes falseta que  simplesmente aceita a a miserabilidade sagrada de cada dia.

Não me leve a mal,a religião tem as respostas para as grandes questões levantadas pelo homem e deve ter esse ponto positivo ressaltado,porque traz segurança e conforto aos corações que sofrem crises existênciais variadas.A busca de eliminar o sofrimento e trazer o indivíduo a uma luz maior,o conectando ao Todo(daí a origem do termo “religare”,religar) maior que você é algo comum a todas elas.

Mas você não está satisfeito e provavelmente está cansado desse conforto que te anestesia e te deixa lesado para a vida diária.Você se rebelou de grilhões culturais e atavicamente sociais que de alguma maneira não exercem mais poder sobre você.Você desobedeceu os ditames e dogmas e passou a questionar e ver que a verdade não se encontrava mais ali e,de alguma forma,sua vida nunca mais foi a mesma.

Essa é a essência da jornada do herói.Você comeu da árvore do bem e do mal e agora está querendo sair da carverna desse mundo de “ilusões”.

“Mas…para onde eu devo ir?”

O caminho é cheio de trilhas e bifurcações,sendo muitas as vertentes.Dentro de magia temos:magia tradicional salomônica,rosacrucianismo,alquimia,thelema,gnosticismo,hermetismo,theurgia,bardonis-mo,satanismo,luciferianismo,caoísmo…cada uma possuindo uma nuance conforme o praticante.

Primeiramente deve-se ter uma base na qual se sustentar durante o caminho.Essa base é o estudo.É fundamental ter um bom estudo de matérias recorrentes a vida diária para se ter cultivado um pensamento crítico.A leitura de livros,revistas e demais artigos ajuda a melhorar o próprio jargão,entendimento científico e histórico do texto que se está tentando compreender.Acredite,eu já me peguei lendo textos do século XVII para trás,coisas antigonas de magia,ou artigos elaborados por renomados professores gabaritados que falavam da origem do diabo até o século XXI.

“Onde arranjar esses livros?”

Sejamos realistas,livros de magia ou esoterismo sério são difíceis de encontrar aqui no país.Quando não custam muito caro ao estudante,eles ainda são restritos pela barreira do idioma e nunca serão traduzidos pela boa vontade das famigeradas editoras.

Seja esperto e adapte-se!Corra para livrarias e busque saber sistema de encomenda de livros,conheço duas grandes livrarias por todo o país que fazem esse sistema e trazem livros do eixo SP-RJ para as “brenhas” dos sertão no qual você reside.Acredite,experiência de que já foi atrás.

Outro sistema é o de compra online.Eu não confio tanto,mas o esquema de comprar por empresas virtuais confiáveis pode ser bem lucrativo,pois muitas vezes chega a ser mais barato que na própria livraria,pecando somente o preço do frete.

Mas de todas as opções de aquisição,nada,repito,NADA supera um puta SEBO!Sim,os sebos,muitas vezes “sebosos”(sem perdão pelo trocadilho,é verdade ¬¬) cubículos enfurnados nas partes mais antigas dos centros das cidades,onde se pode calcular a maior concentração de ácaros e poeira por metro cúbico.Nos sebos há uma imensa possibilidade de se achar raridades a um baixo custo que muito ajudam o iniciante em sua jornada.

Eu digo por experiência própria.Os astros de vez em sempre quando me sacaneiam,mas nunca deixaram de favorecerem meus estudos.Eu já comprei raridades do Papus que quase não tem disponíveis no mercado editorial.O maior de todos meus xodós foi o Magus,do Francis Barret,edição de 1801,editada pela Mercuryo em 94…o livro continha marcas de seu antigo dono…mas num fucking sebo,e custando,pasmem,15 reais!

Tudo bem que o livro é um plágio do livro do Agrippa (fica pra outra história esse causo),mas não deixa de ser uma raridade.

Muitos gostam de baixar livros digitalizados ou em formato PDF pelo custo “zero” do processo e lê-los no computador.É um processo válido,mas não se surpreenda se dentro de pouco tempo você estiver lendo em braile porquê você literalmente fodeu seus olhos.Outra opção que eu mesmo utilizei algumas vezes foi imprimi-los através de gráficas,mas a não tem a mesma preservação do livro de capa dura.Aconselho somente aos textos que são secundários e de uso para consulta,como o Liber 777,entre outros.

Um dos problemas quanto a baixar obras pela internet são os direitos autorais,afinal tem muitos scans e os vivos que escrevem tem que ter o ganha pão deles afinal.Eu não vou negar que já fiz isso,mas muitas vezes para mim não valeu a pena.Por mais que se tente,nada substitui um livro,NADA.

Não que eu esteja “politicamente correto”,mas criei vergonha na cara.Me traz mais satisfação comprar a porra do livro do que me enganar em baixar um.À exceção dos que já se encontram comendo o capim pela raiz ou de obras importantes que não tem autoria,podendo ser traduzidas e postas ao acesso público para o deleite dos buscadores,como tem sido feito por diversas fontes como o Hadnu e o Espaço Novo Aeon com obras gerais do esoterismo ocidental e de thelema,por exemplo.Sem falar que inevitavelmente o estudante terá de aprender algum idioma estrangeiro,como inglês para ter acesso aos melhores livros da área.Até hoje eu sofro com a falta de entendimento por leitura e conversação no inglês que me dificulta em muitas coisas.Triste.Não cometam o mesmo erro que eu,aprendam já!

Se prepare também para gastar dinheiro,mesmo não dispondo de recursos se você não for um cara rico,aprender a lidar com a pobreza exterior é um meio para se cultivar a riqueza interior.Acredite,não é firula minha pra ficar bonito,mas quando não se tem nada é uma boa chance para se ter tudo.Isso se você começar a usar o cérebro,é claro.

Bom,temos os livros.O que mais falta?

Trabalhar,”pedra que rola não cria limo” meu “chapa”.Você já tem a base teórica,mas o conhecimento por si mesmo não basta.Por em prática com exercícios,reflexão para auto-conhecimento,psicoterapia para o auto-controle e diário para metodologia constitui a divina trindade da prática do mago.Crowley,Dee,Agrippa,Salomão,Regardie e outros fucking mestres tiveram diários e grimórios e executaram práticas rigorosas com o objetivo de se iniciarem nesse árduo trabalho que chamam de Grande Obra.

Mas isso fica para uma próxima.Inté!

Publicado em Uncategorized | 4 Comentários

Magia e o poder da palavra

Um dos grandes questionamentos do iniciante ao meu ver é o que “diacho” seria magia e do que ela serviria ao homem que tivesse domínio sobre ela.Isso por ser bastante comum os interessados nelas anteverem primeiramente seus benefícios em detrimento dos encargos impostos.

Pela etimologia da própria palavra sua origem é incerta.Os antigos persas tinham uma visão bem mística da magia,como algo dado ao homem como dons divinos.Muitos desses homens era tidos como “sábios” ou “magi”.Outra possível origem pode ter surgido com a palavra “imago”,que significa “ilusão” e “imagem”.Fazendo uma alusão ao já esposto como “imagem”,”ilusão”,”sábio” podemos arriscar em definir como a magia ser a arte dos sábios de criar coisas miraculosas.

Essa visão de prodígios por muito tempo foi levada pelas mais diversas culturas.Ninguém de fora da arte entendia seu funcionamento.Isso porquê as pessoas não conseguem entender a sua linguagem.

Em qualquer sistema de linguagem e tradução existe uma linguagem que o leigo não entende e a linguagem comum e acessível a sua compreensão,sendo esta separada por um hiato.Essa separação é que afasta o homem do entendimento total acerca daquilo que desconhece.A unica maneira de fazê-lo entender algo é ensinando a ele essa linguagem por um sistema de tradução.

Parece viagem,mas a nossa gramática(por exemplo) na verdade é o resultado de séculos de desenvolvimento em cima de grimórios antigos.Sim,grimórios,que são livros de magia compilados ao longo de gerações por autores desconhecidos que atribuiam a autoria e popularidade em cima de autoridades míticas como Salomão,Abraão-O Judeu,Abramelin,etc.

Nesse grimórios o funcionamento de linguagem é o mesmo.Antes de chamar um demônio ou anjo à sua presença,o magista(termo moderninho para mago,mais bonito e menos galhofa) tinha de conheçer a sua hierarquia e função,como um ser vivo de algum filo do reino animalia ou mesmo um indivíduo autônomo que compunha algum dos setores de funcionamento de uma grande empresa ou corporação.

Sabendo a função e posicionamento o mago tinha de saber o seu símbolo arquetípico,uma imagem que codificasse tudo aquilo sobre a dita entidade e que penetrasse no seu subconsciente para acessá-la.Esse caráter de imagem é importate,note bem.A imagem é uma forma de linguagem,porque nela pode se concentrar diversos simbolismos e explicações complexas que levariam mais tempo e esforço de serem transpostas ao papel.

Bom,temos o nome do ser e o seu símbolo.Para ser feita a conecção o magista tem de iniciar uma chamada simples,algo como teclar os números corretos do telefone para poder ter um te-te-a-te-te com a entidade.Mas antes ele deveria estar prevenido de que autoridade investir sobre si e como tratar a entidade,o que falar sem vacilar e expor…em linguagem nada mais são do que pronomes de tratamento,artigos,substantivos…

…essa linguagem é que é fabuloso da magia.O uso da linguagem desconhecida ao grande público e sabida apenas pelo operador do prodígio não é para chamar atenção dos outros,mas do subconsciente do próprio homem.Apopantoskakodaimonos,abrahadabra e outras palavras são fórmulas especiais de acesso a certas áreas restritas do subsconciente que o indivíduo não conseguiria fazer sozinho com a própria consciência.

A arte e ciência entram justamente em comum da magia,porque há uma cosmologia e paradigmas próprios àquele que decide acessar portais ocultos pela realidade aparente das coisas.Pantáculos,círculos,velas,invocações teatrais,orações fervorosas,etc,são muito recorrentes porque existe a técnica e a arte que as desenvolve para acobertá-la daqueles que a querem perverter e não detém de sabedoria e tradução suficientes para entendê-la.Um erro nessa tradução ou não tem efeito ou,no pior dos casos,tem efeitos desastrosos sobre o magista ou sobre o curioso que apenas quer saber como é essa brincadeira,caindo numa puta de uma “bad trip”.

O primeiro passo para o entendimento é se conhecer.O auto-conhecimento é importante,porque a magia não somente mexe com a realidade objetiva que é externa a pessoa,mas com a subjetiva que é interna a este.Caso contrário,como esperas ter o “domínio” sobre uma entidade ou plano de existência se você mesmo não tem controle mínimo sobre sí?

O segundo passo seria conhecer o universo.Estudar todas as ciências-base,que são português,matemática,geografia,história,filosofia,teologia e ciências naturais(física,química e biologia) eram estudadas com afinco por todos os magos.Magia não é um estudo somente da metafísica,mas um aprendizado constante dos planos tangíveis e intangíveis.Paracelso,por exemplo,era químico,médico,filósofo e teólogo.Não à toa Paracelso(o “médico excelso”) é considerado o pai da química e medicina(tanto homeopática quanto alopática,por mais que os últimos e céticos o neguem),algo que o gabarita de forma inquestionável como apto para estudar magia.

O terceiro pode ser o estudo teórico desse conhecimento e a prática deste.Estudar hermetismo ou hermeticismo e praticar theurgia como os gregos antigamente faziam,ou ler cabala e recitar invocações de anjos ou confeccionar pantáculos diversos,ou mesmo rezar sobre a rosa na cruz e transmutar os elementos alquímicos que são inerentes ao seu próprio ser.

Isso se tratando de ciência,em arte não muda muito.O exemplo mais recorrente que me vem agora é o próprio Alan Moore.Ele é escritor,quadrinista,desenhista…e Mago!Ele é simplesmente foda!A frase que me tocou muito quanto a linguagem e que compartilho com vocês é que ele,ao atingir a casa dos 40 ou 50,poderia ter tido uma crise de meia-idade como todo mundo,mas resolveu pirar e se assumir como um mago…e de tanto dizer essas sandices ele se surpreendeu com a ironia do universo,pois a partir do momento que ele se assumiu como mago ele se tornou um.

Essa é a sutileza do caminho.

The mindscape of Alan Moore

(Obs:àqueles que como eu são jumentos em se tratando de inglês,no vídeo tem o recurso de tradutor de legendas fraquinho,mas que dá para se virar bastante,bastando configurar.)

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

…e disse,”que se faça a luz”…

…E a luz se fez.

Demorou,foi um processo maiêutico desgraçado de parir da minha mente esse meu ensejo pessoal de tratar de ocultismo,magia e espiritualidade na minha senda thelêmica.

Ademais,este singelo blog tratará de ocultismo e suas “news” pelo mundo de lá e cá,magick por definição e thelema.Aos dizeres de um colega meu rosacruz e já o parafraseando:

Este é um blog de um “thelemita nato”.

Nada de Fraternidade Branca,mestres ascencionados,besteirois de auto-ajuda e absorver luz.Quer absorver energia?Então enfia a porra do dedo na tomada!Aqui não tratará de sandices para gente impressionada ou impressionável.Muitos são os que tem dúvidas quanto as ditas “ciências ocultas” e pouco são os que acham os caminhos levam as respostas.Este blog tentará fazer decentemente o papel de iluminar os caminhos do iniciante e alumiar as mentes que buscam por uma faísca daquilo que não tem nome,mas tem um efeito avassalador sobre os espíritos que buscam com sinceridade completar a jornada como uma lamparina que ilumina os caminhos do retirante nas agruras do sertão espiritual.

Também é um blog não-dogmático.Posturas conservadoras excessivas que impeçam a evolução espiritual do ser humano não são bem vistas aqui.Mestres são mestres quando o são de fato,não quando se dizem tal!A roupa não faz o monge,quiçá fizesse o mago!O crivo é o da razão filosófica e reflexiva.

Chegar em Kether e quebrar muitas bundas com meu bastão escrito Adonai.Se você se identifica com a proposta seja bem-vindo como o poeta em Pasárgada,que “Lá sou amigo do rei/Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei(ou homem,vai saber…)” e espero que o baseado filosófico muito te agrade.Aos que não se identificaram,tem o botão com um X no canto superior direito da página.Saia e seja feliz.

No mais,boa leitura a todos.

 

 

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário